registro de um desenho na parede da escola produzido por um adolescente

Convencer estudantes, todos adolescentes, da importância dos estudos e da sua formação cidadã não é tarefa fácil na atualidade. Uma série de obstáculos mina o processo de aprendizagem, entre os quais destaco a indolência e o fator “fase”.

Ultimamente é perceptível o aumento do descrédito pelas aulas, muitas das vezes a coisa descamba para a caçoaria. Mesmo experimentando novas posturas metodológicas, como introduzir o lúdico na aula, a coisa ainda continua problemática. Claro que não é possível ensinar somente pelo lado pitoresco da coisa, o aprender exige um certo desconforto. O conforto não orna bem com a ação do pensar.

As tarefas escolares devem provocar desconforto, pelo movimento do pensar através da elaboração de ideias alimentadas pelas informações e pelos fatos, porque é nele que o aprendizado está. Entre as várias teorias da aprendizagem, a de Ausubel (aprendizagem significativa), por exemplo, propõe que o professor deve estimular o pensar do estudante oferecendo informações incompletas, obrigando-o a descobrir o conhecimento, tecendo os conhecimentos anteriores com as novas hipóteses para encontrar a resposta ideal. Trocando em miúdos: não dê o peixe, dê o anzol.

Contudo, alguns estudantes preferem a facilidade, o atalho, de preferência que seja algo de curta duração, que não gaste muitos neurônios do pouco que eles já usam. Preferem a inação. O regalo leva a zona de conforto — Ricardo Wainer, psicoterapeuta cognitivo-comportamental e professor titular do Curso de Psicologia da PUC do Rio Grande do Sul, diz que “a zona de conforto não é boa ou má, mas uma tendência natural do funcionamento psicológico humano em economizar recursos criando comportamento rotineiros” —, o conforto abre caminhos para a preguiça de pensamento. Pensar exige esforço do intelecto, e é exatamente por isto que não é fácil mover pessoas para fora da zona de conforto.

Remedeio estas problemática não levando para o lado pessoal, pois sei que, além de outras coisas, as dificuldades da vida contemporânea e a desorganização psicológica na fase da adolescência são causas que levam a negativa do processo. Bem sei dos transtornos da maturidade — fase turbulenta, cheia de altos e baixos, na qual estão presentes os desarranjos neurológicas, cognitivos e socioemocionais. Toda essa mudança, acompanhada, ainda, da maturidade física e sexual, promove frenesi de egocentrismo — minha avó resumiria estes desarranjos como sendo coisa de moleque malcriado, enxerido, atrevido e egoísta.

Diante disso, e sem mandar tudo às favas, mantendo a compostura de professor, passei a não me preocupar tanto. Claro que tenho o dever de manter a esperança (do verbo esperançar, nas ideias de Paulo Freire: esperançar é ir atrás, não desistir) — esperança não radical, se é que me entende. Nada além da consciência de que algumas coisas estão em nosso poder e outras não, como lembrou Epicteto em seu manual.

Sim, ainda enfatizo a necessidade da “bunda na cadeira” (estudar em casa, na solitude, quando assim for possível), como também os lembro da necessidade de treinar o estar de corpo e alma em sala de aula (porque isto requer treino, esforço; ainda mais com tantas distrações na era da informação). Estes conselhos são tão comuns nas falas dos professores que já soam como clichês. A cada ano estas frases ficam mais nauseabundas, e perdem potência, não pelo excesso, mas por soarem como obrigação e não por precaução.

Precaução parece ser mais outro assombro no qual os estudantes adolescentes não estariam dispostos a creditarem em suas vidas. Eles vivem pelo risco, e tateiam às cegas. Filosofar não é para mancebo, pensava Platão e Aristóteles, ao considerar uma certa maturidade necessária para absorver conhecimento mais profundo. A despeito de Epicuro, quando dizia que “na juventude não devemos hesitar em filosofar”.

Nós, professores, criamos utopias quando alimentamos certas crenças nas quais encontraremos uma sociedade na qual os estudantes estariam perfeitamente absortos, desejosos, em aprender. Talvez eu tenha exagerado no “perfeitamente”, mas sempre pensamos que um dia — nem tão tão, tão distante — os mancebos terão consciência da necessidade do aprender com quem já trilhou diferentes bifurcações. No entanto, as forças naturais da “fase”, na maior parte do tempo, os fazem pensar que são invencíveis, oniscientes e imortais.

Com um pouco mais de esforço racional, ainda que vivendo à sua maneira — e nem vai exigir tanto neurônio dessa juventude indolente — conseguiriam harmonizar um caminho mais coerente e menos traumático.

Penso que, quem tem energia e racionalidade para aceitar os riscos (embora não os veja nitidamente), terá também a mesma disposição para saber sair das enrascadas. Contudo, somente aquele (ou aquela) no qual foi mais precavido terá habilidade para sublimar os dissabores que hão de surgir.  Viver é, por natureza, arriscasse; saber viver, é opcional, é escolha. A felicidade é um projeto de vida, e isto é outra história que não caberá nesta pequena missiva.

A conversa está boa, mas chegou a hora de encerrar. Ah, só mais algumas coisinhas, a despeito do dito e não dito, o pulso ainda pulsa porque é na certeza de que o professor deve plantar carvalhos e não eucaliptos, como afirmou Rubem Alves, que me vem a alegria do ensinar. Professar é meu projeto. Sabores e dissabores fazem parte do processo. Se por um momento os dissabores prevalecerem, lembrarei das palavras de Darcy Ribeiro:

Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.