Soube desta conversa por um conhecido que foi vitimado por Otite. Dois vírus, dentro de seus ouvidos, conversam reservadamente sobre outros dois vírus que papeavam de modo ciciado, algumas vezes até altivo. O palratório aconteceu assim…

Em uma encruzilhada de um certo organismo humano dois vírus conversam sobre seu meio de subsistência e os dias atuais.

— Bom dia! Senhor Gueden Fláviros. Como está agindo hoje? — perguntou, Luenzia, meio agitado e um pouco assustado por estar ali, em ambiente aberto.

— Bom dia! Luenzia Influc — disse Gueden após uma breve inspiração. Sem demora, olha para um lado e para o outro, como quem esperava algo repentino, e logo em seguida fixa o olhar em Luenzia e diz: — Rapaz, parece que nos últimos dias o período de 24h encolheu, tudo está muito corrido.

— Corrido? Como assim, corrido? Isto é bom ou é ruim?

— É claro que é bom, mas é cansativo. Explico: como você já sabe, o calor aumentou e a temporada de chuva começou, e como os humanos são relapsos, para a nossa sorte, deixam latas, garrafas e pneus atoa. Estamos conseguindo produzir mais. Lembro que somos arbovírus, dependemos, principalmente, das nossas parceiras (Ades aegypti) para infectarmos humanos.  Só hoje cedinho, neste povoado de famílias pobres, a maioria sem instrução, conseguimos ampliar nossa espécie em mais de 200 organismos humanos. E olha que as nossas parceiras só trabalham cedinho ou à tardinha. Se elas fizessem este trabalho nos horários normais, em todo período da manhã e à tarde, a gente já teria infectado todo o povoado ou uma boa parte dele —explicou com ar cansado, como quem já tinha amanhecido em ritmo alucinado de reprodução, e completou: — recebi uma mensagem pelo WhatsApp dos nossos amigos da cidade, dizendo que eles vêm conseguindo infectar muito mais. Uma das razões é porque a população é maior do que a do povoado, a outra é porque parte das pessoas da cidade grande, algumas vivem em bairros pobres e outras em áreas nobres, embora tenha mais gente instruída, é relapsa e mal-educada no quesito saúde. Entendeu o lado bom da coisa?

— Ufa! Só em você falar já fiquei cansado.

— Viu? A coisa não é tão simples assim. A princípio, não vamos só falar da minha vida virótica, quero saber de você. Também está infectando muitos, como a gente? Acredito que conseguem infectar e se reproduzir muito mais do que nós. Digo isso porque nós não somos tão sossegados quanto vocês, e não temos tanta eficácia nas infecções.

— Sossegado e capacidade de infeção? De onde você tirou isso?

— Ora Luenzia, o modo de transmissão no qual vocês usam, pelo trato respiratório, é mais eficiente. Não são totalmente dependentes de outros parceiros para infectar; além do mais, o período de incubação está entre 1 e 4 dias. Diferente do nosso, que está entre 12 e 14 dias, isto depois que nossa parceira picou o ser humano.

— É verdade, infectamos bastante. — completou Luenzia, com ar de satisfação. — Além do mais — continuou —, nós causamos pouco desconforto em nosso hospedeiro. Por isto, sofremos pouca perseguição, diferentes de vocês, que são muito perseguidos, por conta dos modos de ações agressivas no hospedeiro. Como não somos alvos de ataques constantes, somos mais ativos e contínuos, com poucos reveses, creio que a nossa gangue é mais evoluída. Claro, nosso hospedeiro também nos combate. Alguns se entopem de remédios, parece até que esqueceram as dicas de um médico alquímico, Paracelso, quando dizia que a diferença entre veneno e remédio está na dosagem; já outros, buscam combater a gente através dos elixires: chá disso, chá daquilo, chá daquilo outro.

— Pois é… sofremos muito com os ataques constantes do nosso hospedeiro, que se defende contratando mais agentes para nos atacar. E por falar nisso, um momento… — Gueden confere novamente os lados e olha para a outra esquina da encruzilhada, parecia que estava tudo bem. Então continuou — como nós provocamos muito desconforto, somos mais visados e sofremos mais — falou Gueden cabisbaixo. Eles não entendem que precisamos sobreviver, assim como eles, temos que continuar com a guerra. Sem batalha por espaço deixaremos de existir. Por sorte, alguns humanos entendem isso, como por exemplo, o historiador britânico Max Hastings que afirmou: Guerras são necessárias. Até nos deuses mitológicos, na Grécia, aparece um brigão, o deus da guerra, o Senhor Ares, que em Roma o seu equivalente é o deus Marte. Entre estes dois personagens fico com Marte, menos agressivo e mais institucional.  Além do mais, e trazendo para nós, não causamos tanto estrago assim; alguns dos nossos nem provocam desconfortos neles.

— Exatamente — concordou Luenzia, olhando para os lados como quem procurava algum soldado branquelo por perto; e acrescentou — Mas lembre-se que alguns malucos da sua turma são metidos a valentões, causam até a morte do organismo que os hospedam. São um bando de insanos! Me perdoe a sinceridade. Claro, não são todos. Já bastam os psicopatas e desordeiros do Corona. Mas essa nova geração de aborrecentes, digo, adolescentes desordeiros, malucos e insanos estão agindo de modo inconsequente.

— Estão, sim. —  concordou Gueden, completando — mas convenhamos, há malucos até mesmo nas melhores famílias: algumas têm até mais doidos do que outras —, disse com certa intensão de aliviar os erros cometidos por alguns dos seus pares. Contudo, — continuou  — não concordo com algumas atitudes do meu grupo. Às vezes consinto, quando o caso não é grave; afinal, guerras são necessárias. Embora entenda que, quando em guerra, não se deve exterminar o inimigo. Guerreamos para nos multiplicarmos, conquanto haja perdas na batalha. Se a peleja é necessária, para que exterminar o inimigo? Então, não concordo quando grupos têm a audácia extrema em destruir o seu hospedeiro. Certos jovens, hoje em dia, são sem escrúpulos, chegam a causar males gravíssimos.  Meu pai, naquela época, dizia que toda a culpa é da modernidade. Não concordava muito com isso. Certa vez lembrei a ele que muitos outros da nossa turma já fizeram estragos na história.

— Exatamente. — Luenzia interrompeu de modo repentino, como quem já conhecia o que viria a seguir da fala de Gueden. — Já ouvi muitos falarem sobre essa modernidade, estas novas atitudes malcriadas e pérfidas de alguns lesados. Mas deixo claro, e até em certa parte concordo com você, isto não tem nada de novo. É muito antigo. Apesar de que as mortes no passado estavam mais relacionadas ao meio precário de vida do povo. Qualquer infecção no hospedeiro, por nossa gente, poderia matá-lo. Mas agora, com toda a forma de controle e cuidados da sociedade, muitos estão sendo mortos por conta desses malucos que chegaram. Veja que atualmente a nova cepa do Corona cospe no prato que come. Ora bolas! Como posso chamar isso de modernidade? Isto está mais para burrice do processo evolutivo, na qual favorece aos vírus adolescentes, desregrados, sem noção e desordeiros. São vírus tantãs! Desde quando é moderno destruir o meio de subsistência? Eles devem ser humanos travestidos de vírus. Só pode ser! Não tem outra explicação. Digo isto porque existe certos humanos piores do que esta nova cepa. Vou dar um exemplo, a nação brasileira (parte do povo) colocou na presidência um certo político que afirmava que iria matar trinta mil. Já pensou nisso?

E conseguiu? — perguntou Gueden, com cara de assustado.

Pior que isso, vem conseguindo muito mais. Aliás, ele ataca os seus pares em várias frentes: nos alimentos (liberou agrotóxicos altamente nocivos eles), no emprego (provoca o aumento do desemprego; ou mesmo, para os que ainda estão empregados, deixa-os nas mãos dos barões), na economia (vende a alma dos mais pobres, e da classe média, aos banqueiros), nas relações internacionais (entrega, entre tantas outras coisas, as riquezas tecnológicas, as commodities – por exemplo o petróleo – de graça) na  educação (quer tornar a educação privada, e enquanto não consegue, desqualifica os pensadores da educação brasileira) etc. e convence as mentes mais fracas para o seguir na empreitada. E vai além, muito além. Faz um pacto com o diabo, o vírus do Corona. Tenho quase certeza de que ele fez um acordo com esta nova modalidade de vírus. E mais, creio que estes vírus foram bem pagos, pois a nova cepa matou dez vezes mais do que ele (o político) queria, ou seja, mataram mais de trezentas mil pessoas. Tem mais, a coisa não parou por aí, este político que preside a nação está até ajudando aos nossos malucos, estendendo por meses adentro a possibilidade de multiplicações e mutações desta cepa, promovendo, assim, aumento na capacidade virótica de autodefesa e ataque mais eficiente. Sei que este bando de maluco, estou me referindo a nossa espécie, é briguenta, nojenta, e gosta de guerra; mas repito, é involuído, não merece partilhar do nosso moderno meio de subsistência. Se não pode partilhar, não deveria estar entre nós — disse Luenzia, emocionado e com a camada proteica tremendo de raiva.

— Calma, calma — cortou de imediato Gueden, olhando fixamente para Luenzia e estendendo um dos seus tentáculos na direção dele. Percebo que conhece mais a outra espécie, os humanos, do que a nossa. Quanto aos humanos, prefiro acreditar no que o conde Joseph-Marie afirmou século XIX: “Toda nação tem o governo que merece”.  Agora, sobre nós, ou melhor, a nossa espécie, prefiro que não a desqualifique. Já somos atacados por muitos. Por favor, não reforce as fileiras. Você acha correto os humanos nos classificarem como veneno? Ver só a etimologia do nome (vírus) que eles nos deram. Para eles, somos perigosos. Talvez seja por isto que alguns dos nós pensam, revoltados, da seguinte forma: “Se nós somos venenos, então vamos agir como tais”. Ou seja, veneno ou mata, ou aleija. Para eles nós não somos seres vivos, somos partículas infecciosas. Não obstante, eles estão enganados. Um dia vão ver que nós não somos venenosos, mas podemos ser, até certo ponto, bem-vindos. Creio que se eles lessem um pouco mais saberiam disso.

— Bom… eu sei que alguns não provocam danos nocivos aos humanos, mas considerar que certos vírus sejam bons para os humanos acho que você deve ter se enganado — retrucou Luenzia, franziu as sobrancelhas. — Quando falo ser bom para os humanos estou comparando com as bactérias.

— Epa! Espere aí — retrucou Gueden — as bactérias são diferentes de nós. São seres vivos, pelo menos do ponto de vista do conceito humano do que seja vida. Os humanos também são diferentes de nós. Eu até concordo com você quando afirma que eles são piores do que a nossa espécie, pois eles têm vida e, dizem eles, têm intelecto.

— E você acha que não sei? Tenho conhecimento do que estou falando. Mas vamos colocar os humanos tantãs à parte aqui na nossa conversa, já que estes nem Freud, outro humano, conseguiu explicar.

— Se nos compararmos com as bactérias, elas são muito mais bem-vindas aos seres humanos do que nós. Embora elas estejam associadas a doenças, são também benéficas a eles. A maioria delas vive no intestino humano, favorece a digestão, elimina agentes perigosos aos organismos e ainda produz proteínas. As bactérias são importantes por serem usadas na fabricação de vinagre e iogurte, por contribuírem ecologicamente na decomposição da matéria orgânica, e, ainda, por participarem do ciclo do nitrogênio. Entende? Tenho inveja branca por não ser uma delas.

— Inveja branca? Isto está mais parecido com preconceito dissimulado. Olha só, Luenzia, não quero lhe contrariar, mas acho que você está exagerando. Lembre-se que a nossa espécie não é sempre problema para os humanos. Não somos tão benéficos quanto as bactérias, contudo não somos do todo maléficos.

— Como assim? — Eu sei que certos grupos da nossa espécie agem com maior ou menor intensidade contra o hospedeiro. Isto eu sei. Sei também que certos malucos destroem o local onde eles mesmos se alimentam e se multiplicam, um exemplo disso são os insanos do Covid19. Mas sermos benéficos aos humanos! Sei não, viu? Tenho lá minhas dúvidas.

— Ora, ora… diante de tanta facilidade de acesso as informações, há ainda quem desconheça as novidades. Tudo bem, ninguém é obrigado a saber de tudo; mas no momento conturbado no qual o mundo se encontra, urge saber o mínimo possível das informações das quais chegam a nós. É a partir delas que, com nossos estudos (muitas leituras em livros e artigos), produzimos conhecimento. Com estes conhecimentos daremos opiniões mais relevantes e com menos fígado. A propósito, creio que frequentaste uma escola, leste alguma coisa com mais profundidade sobre a nossa espécie, não é verdade? Ou será que só passaste os olhos nas letrinhas que estavam nos livros? Veja bem, Luenzia, Francis Bacon, um humano estudioso, dizia que alguns livros devem ser degustados, outros devem ser engolidos, enquanto alguns poucos devem ser mastigados e digeridos. O que andas a fazer dos seus?

Luenzia desconfiava que Gueden estava zombando dele. Parecia que ele se utilizava dos contrapontos para acrescentar uma certa ironia perniciosa à conversa. Contudo, Gueden aparentava não ter esta intenção. Suas observações à fala de Luenzia era para mostrar-lhe que este deveria aprender um pouco mais antes de menosprezar a sua origem. E antes que Luenzia dissesse algo, acrescentou.

— Olha só, uma pesquisa publicada na revista PNAS mostra que os bacteriófagos combatem certas doenças, ou seja, esses vírus são benéficos para a saúde humana. A pesquisadora Mark Young, outra humana estudiosa, afirmou em uma entrevista que os vírus e os seres vivos interagem e estão evoluindo, trazendo também benefícios para os seres humanos.

— Ei, — interrompeu Luenzia com voz firme — abaixe o facho e deixe de esnobismo. Eu li sim os livros, mas estas informações não constavam nos manuais. Pode até ter chegado nos sites, em artigos, mas em livro não chegou, muito menos nos livros de Ensino Médio. Eu assisti a todas as aulas da professora de biologia, Luiza Virose, e, pelo que me lembro, nada sobre isso ela falou. E nem poderia, isto já faz muito tempo. — Luenzia silenciou por alguns segundos, e logo em seguida completo — Você me fez lembrar de uma dica da minha avó, quando ela dizia: “meu filho, não acredite em tudo que o povo diz”. Daí eu pergunto: esta informação é verdadeira? Tem certeza de que isto não é Fake News? — disse Luenzia, intensificando o tom da voz nas duas últimas palavras.

— Não, não é. Conferi a informação nos sites de checagem — completou Gueden, com ar de quem diz: “não sou tão tolo assim”. E levantando o livro no qual estava preso a um de seus tentáculos acrescentou: — Você tem que ler mais, amigo. — E, com o outro tentáculo, acomodou melhor os pincenês dizendo, em tom irônico, uma frase de Machado de Assis: “A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam”.

A conversa estava esquentado quando, de repente, aparece em uma das esquinas da encruzilhada os soldados defensores do organismo, dos quais temiam os nossos debatedores. Gueden percebeu os inimigos vindo na sua direção. Com olhos arregalados gritou para Luenzia.

— Corre! Corre, corre amigo! Eles estão na nossa cola.

Luenzia olho para os lados, para trás, e depois para frente, tão rápido que mal deu para perceber com nitidez quem estava vindo.

— Quem, quem, quem? Os branquelos?

— Sim, sim, sim…são eles… disse Gueden.

Sem perder tempo, os dois saíram tropeçando um no outro em direção contrária à dos soldados. Cada um saiu em disparada, pegaram direções e sentidos diferentes e sumiram em meio aos emaranhados túneis das ruas orgânica.