Vou estar escrevendo aqui sobre uma mania que já estar ocorrendo há muito tempo. Essa mania surgiu das telefonistas (ouvidoria de qualquer empresa pública ou privada) e operadores telemarketings, e que agora já estar chegando aos youtubers e, não raro, se observa na escrita.

Já estar ficando curioso? Pois bem, se você é daqueles que gostaria de estar aprendendo com as leituras, então vou dar um tempo para possa estar pegando o seu caderninho de anotações, ou mesmo, estar ligando o seu computador para estar anotando algumas palavras nas quais vou estar escrevendo aqui.

Mas fique atento. Vou estar contando uma historinha, usando determinadas palavras, que irão estar provocando alguns desconfortos sonoro quando lido em viva voz. Certo? Já estar se aprontando? Com a escrita a seguir, vou estar diminuindo a sua curiosidade. Aliás, eu até já comecei. Estar percebendo alguma coisa estranha na maneira como venho escrevendo? Espero que sim. Então, para não perder tempo, vou estar começando.

Em um momento qualquer no tempo, Gerúndio Estarcio já estar sofrendo as consequências da ausência da sua sandália. Objeto que marca de lembranças a vida disciplinar da qual foi submetido quando ainda criança. A falta daquele objeto já estar trazendo a mente dele as lembranças do passado que estão causando efeito no presente e promovendo um futuro próximo. Vejamos o que diz Gerúndio Estarcio.

Um belo dia, depois de uma noite tranquila, quando já estava me levantando, ao mesmo tempo em que estava olhando ao lado da cama, dei de cara com a ausência da minha sandália. Não tenho o costume de sair descalço logo cedo. No mais que de repente fui olhando embaixo da cama para ver se ela estava lá. Não estava. Pior ainda, nem tinha nada onde pudesse estar pisando sem que meus pés tocassem direto no chão frio. Angustiado, sentei-me na cama com as pernas cruzadas, matutando e olhando em redor, mirando os cantos das paredes para saber onde eu tinha deixado o diacho daquela sandália. Num olhar mais atento percebi que ela estava ao lado da escrivaninha, a uns 4 metros da minha cama. A angústia diminuiu, mas os pensamentos aceleram. Parado ali, maquinava uma maneira de ir até lá e pegá-la. Diante daquele impasse pensei:

Quando encontrar algo para sair daqui, vou estar comprando um tapete de pano, preferível branco, para não estar angustiado como agora. O tapetinho seria uma mão na roda. Porque o tapetinho a gente não calça e sai por aí andando sobre ele, e não o deixamos em qualquer lugar; neste caso, teria a certeza de que estaria sempre ao lado a cama. Com isto, estarei evitando maiores desconforto logo ao amanhecer. Se já tivesse este tapetinho já estaria colocando os meus pés quentes sobre ele, ficaria em pé, e estaria saindo e arrastando os pés e o tapetinho, passa a passo, rumo àquela escrivaninha. Estaria pegando minha sandália e estaria sentando a escrivaninha. Estaria usando estas sensações para já estar escrevendo e relatando todo os meus sentimentos de pavor.

Desse modo, você estaria sentindo o desespero emocional causado pela ausência da sandália próximo a cama, e estaria sentindo o quanto a ausência daquele objeto estaria causando desconforto emocional; além do mais, estaria pensando no desespero que é não ter próximo de si, logo ao amanhecer, a sandália e um tapete. Conquanto, creio que, e é bem possível que você não estaria sentindo isso, sua mãe jamais estaria exigindo de você uma sandália em seus pés antes de sair da cama. Contudo, o meu caso é diferente. A falta da sandália me fez lembrar de minha mãe, do que ela estaria dizendo naquele momento no qual ela estaria se enraivecendo e reclamando em viva voz o quanto eu estaria sendo relapso com a minha saúde. Lembro-me, como se fosse hoje, daquela voz aguda dizendo: “ Gerúndio, meu filho, você vai estar pisando novamente neste chão frio? Você não estar lembrando do que eu venho sempre dizendo? Há muito venho lhe avisando para não estar saindo da cama pela manhã sem estar calçando a sandália! Se continuar teimando irei estar tirando de você o PlayStation-1”. Era desse jeito. Ela sempre tirava algo no qual eu gostava. Mãe sabia de todos os meus pontos fracos. Quando ela estava reclamando de algo, conseguia ir ao tutano dos sentimentos. Com isso estaria sempre conseguindo mostrar, neste caso, o quanto eu estaria sendo uma pessoa descomprometida com a minha saúde.

Pois bem, é naquele papel que está naquela escrivaninha que eu vou estar escrevendo tudo isto. Depois de pronto vou estar imprimindo; em seguida, vou estar grudando o papel na parede para que eu possa estar lendo a mensagem materna. Feito isto, jamais estarei esquecendo aquelas normas. E mais, para que a coisa possa estar fixando ainda mais em minha mente, vou estar falando com um amigo meu, um youtuber, para que ele possa estar produzindo um vídeo lendo ‘A cartinha da displicência’ e estar postando no canal dele.

Para reforçar, peço-lhe um favor: gostaria que você pudesse estar lendo, depois estar anotando, estar imprimindo e estar repassando para aqueles que não estiveram lendo ou assistindo a mensagem.

Desde já vou estar agradecendo a sua atenção.

E então, percebeste algo estranho em todo o texto acima? Se não, releia. Se sim, e se preferir, marque todos os verbos, atente para as terminações: ANDO, ENDO, INDO. Note, também, a presença do verbo ESTAR. Repare, ainda, no excessivo uso do gerúndio e do verbo “estar”.

Além dos professores de Língua Portuguesa, muitos já falaram sobre os vícios de linguagem. No texto acima ocorre o chamado ‘gerundismo’ (uso inadequado do gerúndio), é o pecado pelo excesso do gerúndio. Em boa parte do texto, pode-se perceber o uso corrente do verbo “estar” acompanhado do gerúndio com finalidade de designar uma ação no futuro.

Destaco aqui dois autores que já escreveram ou discutiram sobre este vício de linguagem. São eles: o ex-publicitário e escritor Ricardo Freire, que publicou uma crônica com o título: “Manifesto antigerundista”; e o jornalista Eduardo Martins, autor do Manual de Redação e Estilo, no qual afirmou que o gerundismo “é uma influência mal digerida do inglês em frase como I will be sending (‘vou mandar’ e não ‘vou estar mandando’).

Atualmente percebe-se vários youtubers utilizando-se do gerundismo. A frase mais comum entre eles são: “(…) vou estar passando pra vocês (…)”, ou , “vou estar apresentando”, ou ainda, “vou estar postando” etc. Na semana passada ouvi em um programa jornalístico a seguinte frase: “Já, já vou estar passando a lista dos nomes das lojas que estão fechadas, de acordo com o decreto de ontem”.

A fala (linguagem verbal oral) é dinâmica e complexa, muitas vezes destoa da escrita. O princípio fundamental da fala é a comunicação. Lembre-se do Samba do Arnesto de Adoniram Barbosa. A escrita tende a acompanhar a dinamicidade da fala (dizem alguns linguistas), embora a escrita tenha sua peculiaridade construtiva, formal e abstrata, visto que na aprendizagem da escrita observa-se unidades, a estrutura organizada da palavra, morfemas, além do seu significado, a Sociolinguística garante que o tal “erro” é uma variante linguística.