Em um lindo dia, no tempo do ronca, quente como brasa e seco como a seca de quinze (não presenciei estes tempos, mas li Rachel) Zezinho, menino chocho, barriga saliente, foi a uma loja para comprar bolinhas de gode (antigamente chamava-se ‘bilas’). Saiu de casa ainda pensativo, de ter que usar seu minguado pé-de-meia (rigorosamente controlado) na compra de um outro objeto. Desde cedo aprendeu a utilizar a sofrida consciência da escolha: para ter algo necessita declinar de outro que era, também, objeto do desejo. Naquele momento tinha vontade de brincar com os amigos, fazia-se necessário o sacrifício. Embora os amigos tivessem bilas suficientes, ninguém emprestava as bilas para ele jogar.

Entra no recinto, vê diversos modelos de bilas, em cores e tamanhos. Cheio de felicidades, abrindo um sorriso como quem encontra o paraíso sonhado (momentaneamente tinha esquecido até da sofrida escolha), caminha lentamente pelo corredor, ladeando as várias caixas nas quais estavam as variedades do objeto do desejo.

Queria levar tudo, mas sabia que a quantia que estava em sua posse era insuficiente para comprar tudo aquilo (de repente, veio a lembrança da regra da vida para as pessoas de pouca posse: ‘ou isso, ou aquilo’). Estava com algumas sofridas economias de dois reais, passara quase dois meses para juntar todo o dinheiro para comprar bonecos – outro brinquedo que era de grande agrado, estes eram vendidos em rolados em guloseimas de açúcar; nunca comia o material açucarado, jogava-o fora, ficava somente com o boneco de plástico duro. Antes de ir à loja para comprar as bilas pensou muito se era exatamente o que queria, era muito sofrido ter que renunciar a um para obter o outro. A realidade era dura, e ele, não nascera em berço de ouro. Tinha que se contentar com as condições do momento.

Depois de três voltas ao redor das caixas, sempre fuçando com as duas mãos em busca de bilas menores e sem cores (talvez fossem as mais baratas) não conseguiu encontrar o que queria. De repente, olhando de soslaio, vê em uma estante de metal aglomerados de pacotinho de bilas em um saco de pano pequeno, parecido com uma meia pequena cheia de bilas pequenas. Zezinho vexou-se para próximo da estante na certeza que tinha encontrado o que queria, um monte de bilas a baixo preço (sem corres e pequenas). Pegou o saquinho, girou no sentido horário, e viu o preço: “um real e noventa e nove centavos”. Ficou emocionado. Pensou:

– Oba! Vai sobrar um centavo para colocar no porquinho de gesso.

Pega o objeto e leva ao caixa. A moça do caixa, de pronto, olha para Zezinho, pega o pacotinho com as lindas bilas e diz:

– Dois reais.

Zezinho achou que ela tivesse cometido um erro ao dizer o valor, mas ficou calado. Entregou o montante do dinheiro e esperou receber o centavo que iria para o porquinho. Porém, a moça agia como se nada estivesse faltando. Implacavelmente, pegou os dois reais, colocou na caixa registradora e a fechou. Diante da frieza daquela moça (talvez nunca soubesse o valor de alguns centavos poupados com muito sofrimento), Zezinho não tinha outra coisa a fazer se não perguntar o valor daquele pacotinho.

– Moça, qual é o preço desse pacotinho de bilas?

Ela responde novamente:

– Dois reais.

Zezinho pegou o pacotinho e mostrou a ela o valor que estava ali registrado. Como você já sabe, caro leitor, lá estava escrito: “1,99”. A moça olhou e disse:

– Sim, eu vi. São dois reais!

Então, Zezinho interveio:

– Não. Aqui tem um, vírgula, noventa e nove. Isto significa que é um real e noventa e nove centavos. Portanto, não significa dois reais. Para ser dois reais deveria estar escrito: dois, vírgula, zero, zero (“2,00”).

Neste entremente, a fila tinha aumentado no caixa onde Zezinho estava apenas querendo o seu centavo por direito. Algumas pessoas já estavam aperreadas e já faziam cara feia para Zezinho, creio que alguns até disseram que aquilo, daquele menino buchudo (expressão antiga usada para criança birrenta, tonta; ou ainda, menino de rua que tinha a pança grande, e dura, porque comia de tudo, e em muita quantidade), era palavrório sem noção. Mas o cavaco continuava entre Zezinho e a moça do caixa:

– Você quer um centavo?

– É claro! O preço do produto me diz que sobrará um centavo de dois reais que lhe dei.

A moça já não olhava para Zezinho como antes; de cara aborrecida, abre a caixa registradora e entrega a Zezinho a moeda de um centavo. Uma outra senhora que estava a espera que o caixa desocupasse olhou para Zezinho, que já estava saindo, e disse:

– Você vai muito para a Europa com um centavo!

Zezinho lança um olhar quarenta e três para a senhora, sem dizer uma palavra, e sai pensando:

– Eu não vou, não! Mas se ficar aqui o meu centavo, juntamente com o centavo da senhora e de tantas outras pessoas que deixam aqui os seus centavos; em um ano, quem vai é o dono da loja.

Já em casa, Zezinho foi apreciar as suas bilas, ainda com aquela sensação ruim de ter de passar mais alguns meses para poder comprar um boneco.

Encurtando a conversa, o tempo passou e lá estava Zezinho, agora em uma universidade, em outra cidade, estudando para ser gente. O bucho mudara, de duro e grande – na verdade não era tão grande assim – passou para mole, flácido, muito longe do ‘sarado’ (tendo como referência a ‘barriga tanquinho’, moda de nossa época para certos gostos de alguns homens e mulheres). Era início de dezembro de um tempo não muito distante, a cidade estava em ritmo de festas. O comércio estava um alvoroço só; e, como de praxes (e talvez por feitiçaria), os corações das pessoas nesta época estavam ‘moles’ (melhor dizendo, falsificados). Um grupo de estudantes (colegas de Zezinho) estavam a discutir o fechamento do ano com chave de ouro: iriam fazer uma brincadeira de amigo secreto. (Aqui, caro leitor, chamo a sua atenção para o destaque – ‘grupo de estudantes’ – somente para expor que neste grupo todos estavam com pouquíssimo dinheiro.) O preço máximo do presente deveria ser dois reais. Pelo valor, dava para saber que era uma brincadeira de partilhas de presentes muito simbólica.

Pois bem, Zezinho estava neste meio (haviam colocado ele porque necessitavam de pares de amigos, embora seja possível fazer a brincadeira com números ímpares de pessoas), e se dispôs a participar. De pronto, todos já foram logo dizendo onde iriam comprar os presentes: lá no ‘um e noventa e nove’.

Zezinho conhecera este tipo de loja, antigamente não tinha este nome, lembrou do dia de “ir a Europa com um centavo”. Mas tudo bem, aquilo era passado. Afinal, ele nem estava na mesma loja e nem na mesma cidade. Tudo seria diferente.

No dia seguinte, em um sábado, Zezinho acordou bem cedo, pegou um transporte coletivo direto para o ponto do comércio da cidade. Ao chegar ao centro comercial da cidade percebeu que boa parte das lojas ainda estavam fechadas, era próximo das sete horas e trinta minutos da matina, no sábado o comércio abre às oito horas. Zezinho percebeu que alguns sebos estavam abertos – sebos são ótimos lugares para passar o tempo – pensou. Ficou lá mais do que trinta minutos. De mãos vazias, saiu do sebo e notara que o comércio estava a todo vapor. Procurou a loja de ‘um e noventa e nove’. Lembrou que havia uma na esquina onde vende o guarazona (neologismo inventado pelos estudantes para indicar o local onde vende o guaraná da Amazônia). Foi até o recinto. Ao entrar na loja percebeu algo diferente em vários preços. Na verdade, a tal loja de ‘um e noventa e nove’ tinha outros produtos com preços bem mais elevados. Porém, Zezinho queria o produto de um e noventa e nove. Após fazer um tour pela loja, encontrou o que queria: um singelo porta lápis no preço desejado. Decidiu levar. Antes de chegar ao caixa ele percebeu alguns cartazes fixados na parede do estabelecimento com a seguinte informação: “Embalamos para presentes, por favor, procure nossos funcionários”. Zezinho não contou conversa, procurou um funcionário da loja e encontrou uma moça. Solicita a ela para embalar o produto. A moça, com um olhar meio que caçoada, disse:

– Nós não embalamos presente de “um e noventa e nove”.

– No cartaz não diz isso – retruca Zezinho.

A moça olha outra vez para Zezinho, agora com um ar de quem diz “E daí!”, e responde novamente que a loja não embala presente de um e noventa e nove. A moça, após pronunciar estas palavras, dar as costas para Zezinho e vai embora atender a outro cliente.

Zezinho, já bufando de ódio, sai ‘feliz da vida’ para pagar o objeto. Ao chegar ao caixa, coloca o presente, ainda sem estar embalado, sobre a mesa do caixa e entrega uma nota de dois reais para um senhor. Este faz o registro da venda e entrega um papel oficializando todo o tramete legal da venda. Zezinho recebe o produto e fica parado, escorado na mesa do caixa. O rapaz, bem educado pergunta:

– O senhor deseja mais alguma coisa?

– Sim. Meu um centavo que está com você.

– O senhor quer um centavo?

– Claro! O produto tem preço de um real e noventa e nove centavos, e eu dei dois reais.

– Desculpe, senhor, mas eu não tenho aqui um centavo para lhe dar.  O senhor pode devolver o produto, se quiser.

Zezinho ainda quis perguntar ao indivíduo se ele conhecia o direito do consumidor, especificamente o artigo 39, incisos I e II do Código de Defesa do Consumidor. Mas preferiu manter a paz espiritual quando lembrou daquela máxima: “Dou um boi para não entrar em uma briga”.

– Não! Vou levar o produto. Veja aí em outro caixa, possa ser que eles tenham.

Neste momento o rapaz do caixa pergunta aos seus colegas se eles têm uma moeda de um centavo. Todos dizem que não. Zezinho, que tem bom coração, olha para o rapaz do caixa e propõe uma negociação.

– Peça àquela moça (justamente a moça que negou a ele a embalagem do produto) para embalar com papel de presente este produto no lugar do centavo.

Assim o rapaz fez…e saímos todos felizes (bem, não sei dizer se a moça estava feliz também).

Pera lá! Eu disse que Zezinho saiu feliz. Sabemos muito bem que não é bem assim. Não estou a narrar um conto da Carochinha. A felicidade não ficou por muito tempo. Não demorou muito para ocorrerem novos causos. Ademais, no mundo não há nada perdurável, e é exatamente isto que faz a tristeza ir embora, assim como a felicidade. Contudo, vou fazer um pulo no tempo para destacar outro causo bem mais distante no tempo, não menos aventureiro.

Passaram-se os dias, os meses e os anos; e lá estava ele, Zezinho, já formado, novamente com as intrincadas aventuras dos centavos. Desta feita, em um supermercado na cidade natal. Tudo começou quando o nosso personagem foi comprar bolachas, pães e alguns apetrechos de limpeza. O ocorrido se passou da seguinte forma: Zezinho saiu logo cedo com alguns tostões em mãos, precisava comprar algo para o café da manhã e aproveitar a viagem para repor alguns produtos de limpeza que estavam em falta. O Zezinho já tinha ido àquele recinto outras vezes, algumas vezes quando ia (e quando lembrava, isto era raro) levava seu trocado; até certo ponto, depois de muitas pancadas, aprendera (ou quase aprendera) a levar seu próprio troco. Contudo, não era sempre que ele tinha moedas sobrando para evitar querelas com os operadores de caixas dos supermercados, aliás, era inusual ter moedas sobrando, e, além disso, não era obrigação dele ter dinheiro trocado. Naquele dia ele não estava com moedas no bolso. Todavia, Zezinho estava de bom humor. Nada iria tirá-lo da concentração profunda (somente o corpo seguia, o intelecto havia grudado em algo de maior importância que não é possível revelar aqui). Abobado como estava, praticamente fez tudo no automático: saiu de casa, andou pelas ruas e avenidas, adentrou no supermercado, pegou os utensílios e foi ao caixa. O rapaz que o atendeu, um varapau um pouco apessoado, devia ter acordado muito cedo para cuidar do cabelo antes de ir para a labuta, pois parte do seu quengo aparecia (era um tipo de corte degradê, estilo americano dos anos 50) e a outra parte era viloso, brilhava bastante e parecia ter sido engomado (creio que não era brilhantina, possivelmente era outra meleca que substituía a meleca mais antiga, capaz de manter o cabelo dominado, duro como pau).

– Dezenove reais e quinze centavos – disse o rapaz, olhando para o monitor.

Zezinho tirou do bolso uma nota de vinte reais e entregou ao operador de caixa (função do rapaz). Este abriu a caixa registradora, colocou a cédula dentro e fechou a gaveta. Em seguida, pegou um maço de fósforo, retirou uma caixinha de fósforo, com quarenta palitos, e entregou a Zezinho juntamente com os produtos.

Zezinho deu um goto, inspirou profundamente, e recebeu o produto que ele havia comprado e, também, o que ele não havia comprado (aliás, foi forçado a comprar). Todavia, e como já havia falado, o Zezinho estava feliz (motivo não revelado – top secret!) e acabou deixando passar a petulância do varapau.

Dias depois, lá vai Zezinho novamente ao mesmo estabelecimento, o processo se repetiu (claro, as compras eram outras, e no lugar do rapaz havia uma moça), na hora do pagamento, as compras tinham custado trinta e dois reais e trinta e cinco centavos, Zezinho tinha dado cinquenta reais. A moça puxou de um pacotinho ao lado dela os diabos dos fósforos; ela fez, religiosamente, como tinha feito o rapaz, parecia que tinham ensaiado. Sapecou nos produtos comprados uma caixa de fósforo. Novamente Zezinho (talvez, naquele dia, tenha recebido uma dádiva do céu) deixou passar.

Passou-se umas três semanas e, novamente, naquele diacho de dia, o invocado Zezinho foi aquele trem (ao supermercado). Fez as compras e foi a operadora de caixa – era uma moça também apessoada – entregou a cédula e recebeu de volta as malditas caixas de fósforos e o produto que ele comprou por necessidade. Desta vez, Zezinho já estando pra lá dos quintos, a coisa foi diferente:

– Moça, disse Zezinho, – note o valor desta caixa de fósforo e assine nela.

A operadora de caixa, não entendendo o que foi solicitado, fez uma cara de fuinha e perguntou:

– Para quê?

– Porque eu tenho mais duas caixas de fósforos lá em casa, quando vier novamente eu traria o dinheiro e completaria o valor das compras com o restante das caixas de fósforos que este supermercado me deu como troco de outras compras – disse Zezinho, quase bufando de raiva.

Daquele dia em diante, Zezinho ficou sendo observado pelos funcionários do supermercado, visto que, nunca mais eles usaram as caixas de fósforo como troco. Especialmente para o Zezinho, o troco, era dinheiro vivo.

(Ei, já vai? Está cansado da leitura, não é verdade? Peraí! Não vá embora. Não me deixe falando sozinho. Tem mais aventura. Prometo que encerrarei neste causo, vou até encurtar os detalhes, embora tenha que deixar de contar um monte deles.)

(Tudo ok? Então vamos lá…)

Nos dias atuais, e diante da peste da pandemia, Zezinho arranja mais aventura (aliás, não é ele que arranja, parece que a aventura é quem procura ele).

Lá se vai Zezinho, escondido da peste, e em outra cidade, fazer as compras da semana. Chega ao supermercado e vai fazer aquelas velhas compras. Já no caixa, Zezinho coloca as mercadorias sobre o balcão. Um boy, contemporâneo, pele clara, cabelo crespo (modelo festivo – cor extravagante) passa a mercadoria e diz:

– Cento e oitenta e oito reais e noventa centavos.

– O senhor vai pagar em dinheiro ou vai ser no cartão?

– No dinheiro – disse Zezinho.

Zezinho tira do bolso duzentos reais e entrega ao boy, que logo faz o scaner da cédula colocando-a na direção de onde tinha mais luz e, apertando os olhos (utilizou a visão de raio x), tentando ver o que tinha por dentro daquela cédula. Não disse nada. Abriu a caixa registradora, colocou a cédula lá e passou o troco. Imagine você, caro leitor, o que veio! Pois é… onze reais e um confeito (tem gente que chama de bala. Mas aqui, onde estou, chamar de bala não é muito aconselhável. Lembra projétil, milícia, indolente com armas).

Zezinho olhou para o branquelo e disse:

– Senhor, eu gostaria de receber o dinheiro na íntegra, ao invés de recebê-lo em forma de confeito.

O boy olhou meio esquisito. Teve a audácia de perguntar se Zezinho queria os dez centavos.

Zezinho, educadamente, respondeu com uma pergunta:

– O que o senhor entende por “íntegra”? – E sem esperar uma resposta do boy, Zezinho disse de maneira taxativa:

– Claro!

Neste momento, o boy começou a fuçar a caixa registradora e passou para o Zezinho os dez centavos de direito. E pronto!

Como diziam os contadores de história de antigamente:

“Entrou por uma porta e saiu pela outra, quem quiser que conte outra!”

Ah! Já ia esquecendo: ZEZINHO sou EU.