Desde quando o Brasil passou a ser governado pelo presidente Jair Messias Bolsonaro que a sociedade vem sentido os efeitos maléfico de atitudes pretenciosas de um chefe de Estado. Este governo deu prioridade aos desmanche das políticas sociais implementadas pelos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousselff. A justificativa para tais mudanças era que o partido vinha assumindo postura socialista e que poderia culminar com a implantação do regime comunista no Brasil.

Em discurso no parlatório dos Três Poderes Bolsonaro falava à nação:

“É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como presidente do Brasil. E me coloco diante de toda a nação, neste dia, como o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”

A partir dessa fala já era possível fazer previsões do que estava por vir. Destaco aqui algumas: proposta para aumento da alíquota do imposto de renda para os mais pobres, menos direitos trabalhistas com a reforma da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), reforma previdenciária, reforma tributária, o fim do combate ao trabalho análogo à escravidão (todas com um único objetivo: diminuir o custo da mão de obra e favorecer os grandes empresários) e o encerramento do Mais Médico.

Para esta pequena missiva basta divagar sobre um deles, o Mais Médico. Programa criado em 2013 pelo Governo Dilma Rousseff (PT), levou médicos para áreas mais distantes e vulneráveis do país, que sempre tiveram dificuldades de reter profissionais. O programa sofreu várias críticas, tanto do atual presidente quanto dos apoiadores das ideias bolsonaristas. Algumas das queixas baseavam-se na relação de parceria entre Cuba e os médicos cubanos, a ilha caribenha ficaria com parte dos salários dos profissionais que atuariam no Brasil; a outra crítica, e esta creio ser a real queixa, estavam relacionadas ao alinhamento (parcerias) do Brasil com Cuba, única nação do continente americano que adotou o regime socialista.

Ao assumir o governo em outubro de 2018 o presidente Bolsonaro, com intuito de encerrar o programa Mais Médico (para ele o programa tinha identidade petista – leia-se: comunista – e seu objetivo era a formação de guerrilhas) e relegar os médicos cubano (o presidente chegou até a desqualificar as suas formações medicas), determinou que a validação dos diplomas passariam a ser no Brasil. Esta medida levou o governo cubando a encerrar a parceria em dezembro de 2018 e retirar os seus profissionais do Brasil. Consumado o fato, gerou-se crise na estrutura de atendimento médico, principalmente em áreas mais interiorana do país. Parte da população manifestou-se contra as medidas tomada pelo presidente Bolsonaro.

No site oficial do governo, dia 18 de dezembro, sai os primeiros avisos sobre as novas medidas implementadas pelo presidente: “o presidente da República, Jair Bolsonaro, assinou nesta quarta-feira (18) a lei que cria o Programa Médicos pelo Brasil, que vai ampliar a oferta de médicos em locais de difícil provimento ou de alta vulnerabilidade, além de formar médicos especialistas em Medicina de Família e Comunidade”. Esta medida abriu 18 mil vagas para todo o país. Contudo, na primeira chamada houve baixa adesão; dos 18.511 cadastrados, somente 51,8% confirmaram participação. Convém ressaltar, para não estender as explicações, que dois editais foram quase necessários para conseguir suprir a demanda. O alto índice de desistência forçou a realização de nova seleção (a terceira), em maio de 2019, para suprir 2,1 mil locais vagos. Não obstante, com dificuldades em atrair médicos, e aproveitando-se dos cubanos remanescentes no Brasil, o governo abriu outro edital para 1.800 vagas.

Diante deste quadro surgiram muitos boatos sobre as posturas antiéticas de alguns médicos brasileiros, pois estes profissionais recusavam-se assumir postos de trabalhos distantes dos centros urbanos. A despeitos destas escolhas, levantou-se hipóteses de que nem o programa Mais Médicos e nem Médico pelo Brasil foram prioridades para os profissionais da medicina brasileira, quase as mesmas problemáticas ocorreram em 2013; na época, somente 6% das vagas foram preenchidas.

Bem…, à luz da verdade, é sabido que cada profissão tem lá seus Judas, e por isto não convém generalizar por baixo toda uma classe de profissionais tão importante quanto qualquer outra – no caso em questão, basta lembrar o quanto os profissionais da saúde estão na linha de frente combatendo a pandemia (estes sim são heróis). A régua é para todos, mas nem todos suportam ser medidos ou exigidos no cumprimento das suas obrigações previstas em certos parâmetros; sempre há uma escolha, mesmo que seja contra os padrões normativos. Seguir as prescrições, no caso dos médicos, conforme aludidos no Código de Ética Médica (adaptada do antigo código das práticas médicas, o Juramento de Hipócrates) não é incumbência de todos (os Judas sabem disso), embora seja de grande valia profissional (moral e ético) assumir o compromisso. O antigo código, Juramento de Hipócrates, é referência histórica de conduta ética, posto que destaca como princípio último a sacralidade da vida e a dignidade humana:

“Eu juro, por Apolo médico, por Esculápio, Hígia e Panacéia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e sem contrato escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes. Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza à perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva. Conservarei imaculada minha vida e minha arte. Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam. Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução, sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados. Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça.”

Vale ressaltar que nas cerimônia de colação de grau no Brasil usa-se um breviário do texto original, confira:

“Prometo que, ao exercer a arte de curar, me mostrarei sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da Ciência. Penetrando no interior dos lares, meus olhos serão cegos, minha língua calará os segredos que me forem revelados, o que terei como preceito de honra. Nunca me servirei de minha profissão para corromper os costumes ou favorecer o crime. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, goze eu a minha vida e minha arte de boa reputação entre os homens e para sempre. Se dele me afastar ou infringi-lo, suceda-me o contrário”.

Para os mais curiosos vamos a uma resumida história da mitologia grega, cuja a narrativa apresento abaixo:

Asclépio (na mitologia romana é conhecido como Esculápio) é um dos vários deuses da mitologia grega; filho de Apolo (progênie de Zeus e Leto, deus do Sol, da poesia, das artes, da música, da justiça, da lei e da ordem) e Corônis (uma ninfa – divindades femininas secundárias associadas à fertilidade -, ser mortal).

Conta o mito (há várias vertentes deste mito, aqui só veremos uma) que Corônis (filha de Flégias, rei em Tessália), depois de se entregar aos prazeres com Apolo, e deste engravidou, enamorou Ischis (a quem era prometida). A peripécia chegou as ouças de Apolo que se vingou logo em seguida. Corônis foi morta por flechas lançadas por Artemis (deusa da caça, da Lua, da castidade, do parto e dos animais selvagens; cognominada de Diana, na mitologia romana), a pedido de seu irmão, Apolo. Ocorrer que Corônis estava grávida de Asclépio e este foi retirado por Apolo, às pressas, do ventre da mãe por uma cesariana umbilical. A criança foi entregue aos cuidados de Centauro (instinto animal em junção com a inteligência humana) que o educou nas artes da medicina. Asclépio passou a ser um grande conhecedor e prático nas artes médicas que chegava até a se igualar a Zeus, dando aos imortais a possibilidade de chegar a imortalidade.

Pois bem…, sem mais delongas, Asclépios casa-se com Epíone (em grego, aquela que acalma), do casal nascem Acesso (aquela que cuida), Panacéia (aquela que socorre) e Higia (aquela que representa a saúde; desse nome temos a palavra higiene).

Então você, caro leitor, poderia perguntar – Mas o que tem a ver Asclépio com o Hipócrates? – Tudo a ver, direi. Hipócrates nasceu na Ilha grega de Cós (460? a.C.), seus pais, Heráclides e Fenareta, eram descendentes de Asclépios. Estes eram notórios nos saberes da medicina, reconhecidos em seu período pelas curas e magias.

Ah, já ia me esquecendo! O símbolo da atividade médica (bastão de Esculápio) é quase sempre confundido com o símbolo que representa as atividades comerciais (o caduceu de Mercúrio – este era filho de Júpiter e de Maia), esta confusão leva a constantes erros quando alguém vai utilizar-se da simbologia médica em cartão de visita, ou ainda, se observa esta ocorrência em algumas das organizações medicas americanas.

Novamente, sem titubear, você faria outra pergunta – E por que há esta confusão no uso destes símbolos? – Bem…isto é uma outra história mitológica.